Os iPhones 8 e 8 Plus, anunciados em setembro, chegaram ao Brasil no comecinho de novembro e não causaram tanto frisson. Afinal, eles se parecem muito com os antecessores: olhando de frente você vê praticamente o mesmo celular. Só quando viramos percebemos que ele está um pouco diferente, com traseira de vidro com tons diferentes. Existem ainda todas as novidades internas: um processador mais potente, tela com tecnologia TrueTone, resistência à água e câmeras melhores. E aí fica a questão: vale a pena investir em um aparelho tão caro que lembra tanto seu antecessor? Estou usando o iPhone 8 Plus há quase um mês e chegou a hora de contar como foi a minha experiência com o aparelho – e responder essa importante pergunta.

Quando eu tirei o iPhone da caixa, a primeira coisa que fiz foi virar e dar uma boa olhada na traseira dele. E olha, com todo respeito, é bonito, viu? Sempre gostei mais dos celulares com acabamento de vidro, apesar do risco maior que terríveis rachaduras e pedaços estilhaçados. Quando a Samsung colocou vidro na traseira do Galaxy S6, comemorei silenciosamente – era o fim de uma era de Androids high-end que pareciam de segunda linha. E quando a Apple trocou o vidro do iPhone 4S por metal no iPhone 5, senti uma pontinha de tristeza. O metal também é bacana, vide os modelos da HTC e os últimos Nexus. Mas a escolha da Apple neste ano dá margem para uma comparação visual direta entre o metal e o vidro. Não tem mais aquelas linhas brancas do modelo dourado – essa cor ficou bem bacana, inclusive – e ele brilha bastante.

Eu sei que a opção pelo vidro não foi simplesmente estética. A fabricante tinha um problema para resolver com a intenção de colocar a tecnologia de carregamento sem fio, que funciona melhor com esse material. Sei também que existem desvantagens: a já apontada facilidade de quebrar, as marcas de dedos mais frequentes e outros dois custos (caros, inclusive): 0,2mm e 14 gramas a mais em relação ao iPhone 7 Plus. O novo celular da Apple pesa 202 gramas e usar essa coisa com uma mão só, com o dedinho apoiando a base para ele não cair, faz parecer que o meu mindinho ficará mais torto do que é e que terei problemas seríssimos de tendinite a serem tratados com meu ortopedista. Mexer em um smartphone com tela de 5,5 polegadas com uma mão só já é um desafio e digitar é quase impossível. Mas você sabe, têm momentos que estamos ali, só navegando, rolando para baixo, com uma mão só. E aí a dor no mindinho surge. Precisei adquirir o novo hábito de segurá-lo sempre com as duas mãos (ou quase sempre).

O aparelho tem uma tela de 5,5 polegadas em um corpo grande de 158,4 x 78,1 mm. É quase o mesmo tamanho do Galaxy Note 8 (162,5 x 74,8 mm) com um display 0,8 polegada menor. Essas são informações que me partem o coração, entende? Porque são aparelhos que custam quase o mesmo preço (o iPhone 8 Plus é R$ 200 mais caro) e você tem um celular com um layout meio atrasado. Com bordas. O design tradicional é bonito. Aliás, era com isso que estávamos acostumados até o ano passado. O visual padrão tem lá as suas vantagens: o botão home com TouchID está na posição perfeita, é fácil desbloquear o celular com segurança. Eu ganho um alto-falante frontal que casa o som com o alto-falante da moldura do aparelho. Essas coisas funcionam. Mas falando de ergonomia e de preço, fica claro que existe um competidor à frente aqui.

Já que estava falando do tamanho da tela, deixa eu comentar sobre o display em si e essa tal tecnologia TrueTone. A Apple tem, tradicionalmente, a tela mais equilibrada. Na prática isso quer dizer que é legal ficar olhando pra ela, não tem aquela saturação pesada do AMOLED, mas as cores também não são lavadas. E ficou melhor com o True Tone que ajusta o balanço de branco de acordo com o ambiente que você está – em uma luz fluorescente ela adota um tom mais frio e na luz incandescente um tom mais quente. Isso é bem perceptível quando você troca de ambientes ou sai à luz do sol.

Os deslizes e acertos do iOS

Se por um lado existem pontos negativos para o iPhone 8 Plus ser grandão e pesado, por outro significa que eu tenho bastante tela para ver vídeos e ler. E como o meu último teste tinha sido do Galaxy Note 8, vim num ritmo bem intenso de leitura pelo celular – que, em tela menores, pode ser desgastante. E é aqui que mora a vantagem do TrueTone: a leitura fica mais agradável, os olhos não cansam tanto e as cores das imagens também ficam mais parecidas com aquilo que elas realmente deveriam ser. No começo eu achei meio esquisita essa troca de temperatura e uma das primeiras coisas que fiz foi deslizar para cima, abrir a central de controle, apertar com força na opção do brilho e desativar a função. Mas depois dei uma chance e ela me conquistou.

Esse caminho que descrevi fala muito sobre como é o iOS, principalmente para quem vem de um Android. Existe aqui, inevitavelmente, uma questão de preferências e gostos, e o iOS me cativa bastante pela facilidade de encontrar o que eu preciso, por permitir que eu navegue entre meus aplicativos de forma muito fluida e pela integração com o hardware. O Force Touch parece besteira, mas definitivamente é diferente de um apertar e segurar. Perdi as contas de quantas vezes deixei de abrir o WhatsApp e ir até uma conversa para apertar com força no ícone do app e já escolher o contato frequente que eu queria. E de quantas vezes eu usei a pré-visualização de páginas no Safari e Email. Fora a pré-visualização de perfis no Facebook, dar aquela aumentada rápida na foto de alguém para ver quem é.

Outra característica do iOS que me fará sentir saudades desses momentos que vivi com o iPhone 8 Plus são os gestos para voltar. Quando você precisa simplesmente arrasta da esquerda para a direita para voltar para a tela anterior dentro de um app, apertar um botão de voltar se torna muito obsoleto.

Mas iOS, você tem os seus defeitos. Eu não entendo o jeito que você lida com muitas notificações. Por que você não deixa eu apagar todas de uma vez, independente do momento em que elas chegaram? Por que você não agrupa as coisas que recebi de cada lugar e não deixa eu dispensar um app específico? Eu não entendo também porque desativar o Bluetooth na Central de Controle não significa realmente desligar o Bluetooth.

Essa telinha, por exemplo, é meio inútil.

E iOS, trate de ser melhor com aqueles com quem você está há mais tempo. Seja mais companheiro dos modelos antigos que sofrem com seus bugs. É totalmente compreensível as reclamações sobre o iOS 11, mas uma série de problemas que o sistema apresentou para muita gente não aconteceu na minha mão. Provavelmente porque essa é a versão mais recente do celular, o que não é justo com os outros modelos.

Bateria insana

Isso me fez lembrar de uma reclamação bem recorrente entre os que atualizaram seus iPhones antigos para o novo iOS: a bateria. Uma das minhas primeiras reações durante o anúncio dos modelos de 2017 foi bater com moderada violência na mesa quando soube que a célula de bateria do iPhone 8 Plus estava menor em relação a geração anterior (2691mAh no 8 Plus, contra 2900mAh). “Até quando esse sacrifício por bateria vai continuar?”, pensei. Isso até o iPhone 8 Plus chegar nas minhas mãos. Essa bateria tá durando muito. Sério, a autonomia está ótima. Com os concorrentes, eu tinha que andar com a tomada na mochila, por garantia. Com o novo iPhone eu não preciso, eu tenho certeza que ele vai aguentar o tranco durante o dia todo.

Aqui vai um exemplo de um dia que passei 19 horas longe da tomada e terminei o dia com 20% de carga restante: tirei ele da tomada às 8h, me arrumei para sair de casa e, das 9h até às 10h li alguns textos no Safari enquanto ouvia música no Spotify. Chegando no meu destino, usei frequentemente o celular para tomar notas das palestras que estava acompanhando e fotografar. Uma troca de mensagem aqui e ali, checar emails de vez em quando, olhar as redes sociais. Segui assim até voltar para a casa, novamente lendo e com o Spotify rodando em segundo plano. Em casa, assisti alguns vídeos no YouTube, troquei bastante mensagem. Só fui colocar na tomada de novo às 2h da manhã. Tudo isso com o brilho da tela no automático. O cenário do dia a dia não era tão diferente assim, mesmo usando a câmera com mais frequência ou serviços de GPS, fiquei bem tranquilo em relação à autonomia.

E em um celular de 202 gramas, dá para entender porque não mantiveram a célula anterior, maior ainda. A bruxaria acontece no chip A11 Bionic, que faz um gerenciamento bem eficaz de energia. A bateria do iPhone 8 Plus vai embora bem mais rápido quando você exige bastante dele, ao utilizar os apps de realidade aumentada, por exemplo. Agora, quando ele está em repouso, o chip é capaz de te mandar as notificações sem atraso, mas praticamente não sugar a energia dele.

O meu problema com a bateria é que estou acostumado em carregar meus celulares em poucas horas e, apesar do novo iPhone ter tecnologia de carga rápida, o carregador que vem na caixa não é compatível. Se eu quisesse carregá-lo rapidamente, teria que comprar uma fonte mais potente. No site oficial da Apple, essa fonte custa R$ 329,00. Eu não sei em que mundo estaria disposto a gastar essa grana em um carregador, considerando que eu já teria pagado mais de quatro mil reais no aparelho.

O novo cérebro dos iPhones não é eficiente só na hora de gerenciar bateria. Como se deve esperar de um aparelho topo de linha que saiu da caixa, o desempenho é inquestionável. E como as especificações do modelo 8 padrão e o modelo 8 Plus são praticamente idênticas, existem três razões para preterir a versão menorzinha e mais ergonômica: as polegadas a mais, a bateria ligeiramente melhor e a câmera dupla.

A câmera que faz a diferença

Para quem realmente gosta de fotografia e pretende usar bastante a câmera, o argumento da Apple da câmera dupla pode funcionar e te convencer a optar pelo modelo mais caro. Eu fiquei convencido nos primeiros cliques que fiz. A câmera vai bem praticamente em qualquer cenário: bem iluminado, mal iluminado, com muito movimento, e por aí vai. Você tem a opção de dar um zoom óptico de 2x rapidamente clicando no botão que fica na parte inferior e os resultados à luz do dia são bem similares entre um sensor e outro. A diferença entre eles passa a ficar evidente em ambientes escuros, e a lente responsável pelo zoom demonstra muito mais grãos.

O grande barato mesmo dessa câmera é o Modo Retrato. Você já deve estar ligado no que é, aquele fundo borrado, que imita os resultados de fotos tiradas com câmeras profissionais. Foram os iPhone Plus que popularizaram esse modo, que passaram a surgir com destaque em outros modelos, então é natural que os resultados aqui sejam bem mais refinados do que na concorrência. De vez em quando ainda acontece de uma parte ou outra da foto não estar borrada do jeito que deveria, mas a ocorrência foi bem menor do que outras experiências que tive.

É divertido brincar com a edição dos retratos para adicionar mais luz ao rosto da pessoa ou tirar o fundo para criar um efeito dramático. A primeira coisa que fazia depois de tirar um retrato era ir no Fotos, clicar em editar e conferir os resultados da Luz de Palco. Às vezes é um fiasco, parte do cabelo da pessoa vai embora, por exemplo. Mas isso acontece quando algum elemento do plano de fundo se confunde bastante com a cena principal; funciona bem quando você tem um contraste definido entre o que é a pessoa e o que é o plano de fundo (folhas de árvores e cabelo se misturando, por exemplo, deixam as coisas bem estranhas). Mas para o Modo Retrato tradicional, os resultados são bem consistentes.

Dá para tirar um fundo meio zoado da foto, por exemplo.

O novo sensor também trouxe melhorias para o vídeo e, se por um acaso você é um YouTuber, o iPhone 8 Plus poderia ser muito bem a sua câmera principal. Os vídeos 4K são gravados em 60 quadros por segundo, então espere imagens suaves e com muita resolução. E o recurso de câmera lenta grava em Full HD em 240 quadros por segundo. Perdi as contas de quantas vezes eu filmei em câmera lenta o meu cachorro comendo.

O software da câmera do iPhone é simples e intuitivo. Você entra, clica e sai feliz. Alguns botões e deslizar pela tela te leva onde você quer. Muitos Androis já têm câmeras incríveis, mas com dezenas de recursos escondidos dentro de menus confusos. Mas diz aí, o que você quer para bater uma foto? Geralmente, é sacar do bolso e clicar, bem rápido, pra não perder o momento. Inclusive, o recurso Live Photo é especialmente útil para você recuperar uma foto boa: por exemplo, se alguém piscar no momento do clique, dá para editar e buscar um trechinho do que a câmera gravou e que todos estavam de olhos abertos.

O iPhone não exige muitos esforços do usuário. Mas, vem cá, Apple… Por que o seu aplicativo nativo não me deixa fotografar em 16:9? Essa proporção 4:3 é tão démodé, onde é que se usa foto 4:3? E não, eu não estou a fim de baixar o Camera+ para poder tirar minhas fotos na proporção presente em praticamente todos os monitores e telas de celular. Mais uma pra lista de detalhes que a Apple deve resolver em breve.

Se você quiser visualizar uma comparação direta entre as câmeras da geração anterior e dos novos iPhones, dá uma olhadinha nas imagens do review do Giz americano abaixo. Resumindo, a gama de cores está mais ampla e o flash não deixa mais as fotos tão esquisitas.

Dá uma olhada na maior gama de azuis no céu, na imagem tirada com iPhone 8. Ambos oferecem detalhes incríveis para uma foto tirada com smartphone.

Vê como esses vermelhos se destacam mais na foto do iPhone 8? Ambas as fotos estão bonitas.

De novo, o vermelho é um pouco mais vermelho no iPhone 8, mas ambas são bem parecidas.

É difícil de ver, mas existe um pouco mais de ruído nas partes escuras do iPhone 7 Plus que não aparecem na imagem do iPhone 8 Plus.

Graças a uma nova função de exposição dupla, o flash no iPhone 8 Plus captura detalhes no fundo que o iPhone 7 Plus acaba levando embora.

De novo, o destaque para os vermelhos. Nesta foto com zoom, a performance é praticamente a mesma.

Eu não vejo nenhuma evidência de erros no efeito bokeh, mas vejo vermelhos se destacando!

O iPhone 8 Plus compensa?


Os iPhones se parecem carros agora. Vem comigo, pensa na indústria automobilística: todos os anos são lançados novos modelos com pequenas otimizações internas, um motor mais eficiente e um conjunto de lanternas mais modernos. Essas pequenas melhorias vêm com um custo, às vezes o modelo custa alguns milhares a mais, outras mantém o preço e só desvaloriza os carros de fabricação anterior. Essa é a história do iPhone 8 e 8 Plus.

Isso não quer dizer, necessariamente, que um celular ou um carro zero não valham a pena. Tudo vai depender da grana que você tem no bolso, da sua vontade e das circunstâncias – por exemplo, você está fazendo um upgrade de um modelo do ano passado ou outro mais antigo? As melhorias entre os modelos 7 e 8 do iPhone são pequenas. Se você tem um iPhone 7, não existe nada no 8 que realmente faça você querer um aparelho novo. Agora, se você vem da sexta geração, as coisas começam a mudar. Você tem a opção de pagar mais barato pelo 7 ou investir mais pesado e pegar o que há de quase melhor entre os iPhones (afinal, temos o X agora!). É uma escolha difícil, eu entendo. Eu mesmo ficaria relutante de escolher o 8, mas veja, é um celular que me agradou e supriu as minhas necessidades.

Então, dá uma olhadinha na tabela de preços e pensa bem:

iPhone 7 de 32 GB: R$ 3.199
iPhone 7 de 128 GB: R$ 3.699
iPhone 7 Plus de 32 GB: R$ 3.799
iPhone 7 Plus de 128 GB: R$ 4.299
iPhone 8 de 64 GB: R$ 3.999;
iPhone 8 de 256 GB: R$ 4.799;
iPhone 8 Plus de 64 GB: R$ 4.599;
iPhone 8 Plus de 256 GB: R$ 5.399.

Essa é a conclusão para quem já está dentro do ecossistema da Apple. Se você tem mais de quatro mil no bolso e está pensando em pegar um lançamento, existem praticamente quatro opções certeiras: iPhone 8, iPhone 8 Plus, Galaxy S8 ou Galaxy Note 8. É impossível dar um veredito sobre qual é o melhor, afinal isso vai depender muito de suas preferências em relação ao sistema operacional. O que dá para dizer com tranquilidade é que a Samsung avançou no design, enquanto a Apple tem câmera a bateria superiores. Existem outros pontos a levar em consideração também, como desvalorização, preço de revenda e qual plataforma você costuma usar no dia a dia no computador. Se você tem um MacBook, encontrará uma série de vantagens no iPhone, uma integração muito bem feita, por exemplo.

O iPhone 8 Plus está entre os melhores celulares que já usei. Mas também me lembra muito de um celular que eu usei no ano passado.

Entrada P2, confesso que não senti muito a sua falta. Mas eu queria muito que você ainda estivesse conosco.

Essa Central de Controle do iOS 11 ficou bem legal.

TouchID, eu te venero.